segunda-feira, 8 de junho de 2009

Braid

Tudo começa como um erro.
Minha mãe é enfermeira. Os médicos que cuidaram do parto eram todos seus amigos de trabalho. Esqueceram de olhar a hora em que nasci. Minha mãe perguntou: -Que horas que foi?- Os médicos: -Foi o quê?- Minha mãe: -Que o menino nasceu, gente.- Os médicos olharam para o relógio e calcularam de cabeça que deveria ter sido por volta das 11 e 40 da manhã. Era 1 da tarde. Até hoje não sei a hora que nasci. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
A primeira vez que fiquei com uma menina, de ficar ficar mesmo. Eu tinha uns 9, 10 anos. Não lembro. Uma menina mais velha estava afim de mim. Meus amigos me falaram que eu ía ficar com ela senão ela ía espalhar por todo o bairro que eu era gay e tudo mais. Coisa que provavelmente ela faria. Fiquei com ela. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
Eu perdi minha virgindade com também uma menina mais velha. Eu tinha 13, 14 anos. Não lembro. Ela praticamente me atacou. Ela era um monstro. Hoje até é bonita, vi em algumas fotos. Mas na época ela me atacou, assim como o seu cabelo atacava a beleza do mundo. Pensei: -isso é sexo? É sobre isso que os caras ficam falando no recreio do colégio? Nossa, se sexo é isso, então é uma bosta. Que merda- Mas eu queria provar que eu era um homem. Então fiz até ela gozar. Eu não gozei. Mas nós quebramos duas pernas da minha cama. Eu e a besta. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
Minha primeira briga foi quando eu tinha uns 15 anos. Eu era meio doido na época. Andava pelos debuts me achando melhor do que todos que estavam lá dançando e tudo mais. Chamava todo mundo de playboy na cara. Enquanto eu bebia mais e mais. Um dia, saí com dois primos de Belo Horizonte e eles se encontraram com um grupo de pessoas que os odiavam e tudo mais. Eram 9 pessoas. Eles foram pra cima da gente. Dei um soco. Levei uma correntada na cara. A briga acabou por aí. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
Meu primeiro porre brutal foi quando eu tinha 16 anos. No aniversário da irmã de um grande amigo. Bebi, briguei, chorei, gritei, dei cabeçada, vomitei e caguei. Quase quebrei meu violão. Perdi minha ex-namorada da época nesse dia. Foi o começo do fim.

Pra falar a verdade, a gente só faz merda a vida inteira. Eu não fiz nada certo até hoje. Já fiquei com não sei quantas meninas, já transei com não sei quantas meninas. Todos os casos que poderiam dar certo, eu fiz questão de cagar em cima deles. Poderia me casar com várias das meninas que já fiquei. Mas tem algo aqui dentro, que não deixa nada dar certo. Um sentimento de querer ir e ficar. Mas a gente sempre prefere ir. É mais covarde e seguro do que arriscar ir contra os seus princípios e a sua suposta masculinidade/liberdade. Ao mesmo tempo, temos esse egoísmo. Não queremos que nos esqueçam também. Então somos sujos e procuramos até pegar de novo o coração de cada uma. Isso tudo é errado. Eu me sinto como se já estivesse na hora de virar homem. De fazer alguma coisa certa, mas nada certo acontece. Melhor é não fazer nada, talvez. Esperar que caia do céu a mulher amada que me dará de beber a água com que havia lavado sua blusa.

Antes fosse só sobre mulheres. Você também enfia o pé na cara de seus amigos e familiares. Você querendo ser bom para todos. Acaba dando uma voadora na cara de vários e às vezes até na sua própria cara. Tudo errado. Tudo errado o tempo inteiro. Tudo errado a porra do tempo inteiro. Isso é impressionante. É uma putaria. Já vivi mais do que muita gente mas sinto mais vontade de morrer do que muita gente também. Então cadê a porra do sentido de mais e menos? O que vale mais?

Pensar nessas coisas só piora tudo. Quem sou eu pra ficar jogando e brincando com a vida dos outros? Dos meus amigos e dessas mulheres? Quem sou eu pra deixar esse rastro pela vida de cada um que me conhece? Tantas pessoas que já foram pelo caminho. Já deixei tantas pessoas pra trás. A gente perde tudo nessa vida. Tudo. Já deixei tanta gente pra trás que é inacreditável. Nunca vou conversar de novo com aquele casal amigo da minha ex-namorada da cidade dela. Nunca mais vou conversar com seus pais ou com sua irmã. Nunca mais vou poder ser amigo daquele cara com quem eu discuti um dia sobre eu amar a mulher que ele amava. Ele era meu amigo. Com que direito que eu entro e saio da vida das pessoas? Eu não sou Deus nem nada. Tá na hora de virar homem, tá na hora de virar gente, certo?

A gente vive a vida toda nesses erros. Não podemos voltar no tempo nem nada. Somos criados para ser heróis. Somos criados na ilusão de que um dia seremos heróis. A cada dia. Percemos que seremos o monstro e não o herói. Aí percebemos: Nascemos para trair nossos irmãos. Trair nossas namoradas. Trair nós mesmos. E quando você percebe que você não é o herói que salva a princesa, e sim o monstro que quer aprisioná-la. Isso dói. Dói pra caralho. Dói até na sua alma.











DÓI










MAS VOCÊ NÃO CHORA