quarta-feira, 22 de abril de 2009

Mulheres 2


Sara foi o começo de tudo, Sara seria The Heart Asks Pleasure First do Michael Nyman, a música mais linda que eu já ouvi. Assim como o primeiro amor é o mais lindo e utópico, não é? Que ironia, nunca nem beijei a Sara. Mas ela foi o início dessa dor de cabeça de alegrias e tristezas. Poucas pessoas reconhecem a beleza dessa mulher como eu reconheço. E isso me deixa feliz e triste ao mesmo tempo.

Mas Eliane foi minha primeira mulher mesmo. Ela seria Menina Mulher da Pele Preta do Jorge Ben. De um cd que aniquilou a minha vida, A Tábua de Esmeralda. A alquimia estava ali comigo e com ela.

Bruna foi o meu primeiro caso vultuoso. Eu só tinha 15 anos. Ela seria Pink Maggit, a última música do White Pony, o cd do Deftones que endireitou essa incerteza de tudo, assim como ela tirou essa incerteza. Porque no cd da minha vida (pelo menos amorosa) essa faria parte de um trio de músicas, assim como um trio de mulheres. Minha incerteza me fez perder as três. Bruna foi importantíssima.

Cláudia foi a segunda do trio e a mais divertida. Mas a Cláudia era perigosa. Ela era uma mulher problema em potencial. Você não podia se encantar pela Cláudia, porque ela corria. Assim como a maioria das mulheres. Ela seria Handsome Devil, do cd Hatful Of Hollow, da banda The Smiths. Nem preciso de comentar sobre a banda e a banda seria uma comparação exata com a Cláudia, principalmente nessa música. O refrão faz uma referência que a maioria vai entender se ouvir.

Gabriela foi a terceira do trio, a menos divertida. E foi o ápice do trio, porque foi com ela que eu perdi as três. Fiquei com ela pensando na Bruna e na Cláudia. Ela seria Visions of Johanna do Bob Dylan. A música é perfeita pra toda essa situação. As três eram amigas até então.

Depois veio a primeira Roberta, muito nova, apaixonante, mas nova demais e muito diferente de mim. Mas existia a atração, e isso é o princípio do fim. Ela seria Leve do Chico Buarque de Hollanda.

Marcella é Deixa Estar do Los Hermanos. Na época eu havia descoberto o Bloco do Eu Sozinho. Existem alguns casos que você confunde com amor, ou talvez foi amor, você não sabe. Marcella foi uma dessas primeiras, meu amor foi tão sincero quanto esta música do Los Hermanos e tão inconstante quanto.

Jane veio logo em seguida, é impressionante o quanto uma mulher pode te levar a loucura quando ela realmente te quer. Foi o rápido que mais demorou. Pois fica na sua cabeça. Eu gostaria de encontrar Jane de novo, mas nunca mais a encontrei. Foi simplesmente sexual, mas nem por causa disso foi ruim, pelas algumas noites de sexo com ela, Windowlicker do Aphex Twin.

Anna Maria. Não sei porque diabos essa mulher se interessou. Essa foi uma das melhores épocas da minha vida. Era uma mulher atrás da outra. Era só ligar. Ou talvez nem precisasse. Nas festas você se encontrava alguém. Existem muitas formas bizarras nessa vida de ganhar uma menina. Mas a menos usada é conversar. A maioria dos homens não são sinceros ou acham que o gosto das mulheres é outro senão um bom humor, bom gosto, auto-confiança. E geralmente você não precisa de ser bonito pra ter auto-confiança. O que algumas pessoas confundem com charme. Os processos de atração ultrapassam o processo da visão. Para Anna, Ms. Fat Booty do Mos Def. Na época eu ouvia muito rap.

Suellen veio depois, deixou muitas marcas. Pois foi a primeira mulher que eu realmente fui eu mesmo para ganhar. Ou seja, eu maltratei ela. Ela merecia tudo.
Ela seria Bukowski do Modest Mouse. Foi o começo de Bukowski e de Vitor também.

Rafaela tinha três anos a menos que eu. Tem alguma coisa com essas meninas. Sempre elas tão ali pra te instigar, e você, a sua vida toda, tem que se controlar. Uma hora ou outra você acaba se entregando. Eu tinha 17 anos, ela tinha 14. 3 anos bem distantes um do outro. Hoje eu tenho 20 e ela tem 17. Daqui a um tempo a distância não será tão grande. Ela foi meu Playground Love do Air. Porque eu era um Highschool Lover. E foi quando eu descobri essa música. A música que me dá mais tesão assim como a mulher que me dá mais tesão. Ela é mais uma que eu perdi, por eu ser eu mesmo ou por falta de sorte mesmo, até hoje ouço Playground Love, mas nunca mais ouvi o suspiro de Rafaela, e provavelmente nunca mais vou ouvir.

Então veio Camila, meu primeiro namoro. Até então eu não tinha namorado. Eu nunca fui de namorar. Algumas pessoas carregam algo dentro delas, que não deixa elas namorarem durante tanto tempo, você se sente inquieto, com vontade de explodir. Não sei explicar direito, mas você se torna inconstante e infeliz. É isso que acontece comigo. Sempre achei que isso era o sangue do meu pai. Que sempre foi inconstante em relacionamentos também e sempre tratou muito mal as mulheres. Você não pode mudar o seu sangue. Mas você pode tentar controlá-lo, porque minha mãe sempre foi uma mulher muito boa. Édipos a parte. Camila seria Amor de Trapo e Farrapo do Paulo Vanzolini, o primeiro amor que quase deu certo, só poderia ser um amor assim.

Stella foi uma das melhores. Puro tesão. Até hoje, puro tesão. Ela seria Methamphetamine Blues do Mark Lanegan.

Maria Clara foi inesquecível. Inesquecível pelo menos por enquanto. Nessas horas você vê que você é uma pessoa horrível. Queria morar com ela e viver com ela, mesmo que por um tempo. Mas os dias passam e mais distante você está da pessoa e da possibilidade. A vida te leva. Uma das músicas mais lindas que já ouvi pra ela. Live With Me do Massive Attack.

Depois veio o começo de uma indignação. Larice, outra mulher que eu maltratei, que foi para uma pessoa que ofereceu algo pra ela logo após. Isso é uma das teorias mais provadas da vida. O que ganha uma mulher, na maioria das vezes, é a ocasião. Você não é nada. Ela que faz tudo. Para Larice, Carinha dos Trovadores Urbanos. Para ela e para todos os carinhas que chegaram depois para essas mulheres.

Você já sentiu uma enorme atração por uma pessoa, pelo intelecto dela e pelo corpo dela? Mas depois esse sentimento fenece. Assim como a flor que é mudada de vaso. Ela simplesmente fenece. Mas o sentimento importa do mesmo jeito. Para Teresa, Break You Off do The Roots. Você ganha uma pessoa pela ocasião.

Um dos maiores e mais sofridos. Que eu sofri mesmo. Para nossa amiga Marina, Take You On A Cruise do Interpol. Eu sofri demais, como todos nós sofremos em alguma etapa da vida. Sonhos destruídos. É assim. Todo o desejo sexual e amoroso está aqui, mas ela não está e nunca estará. Certas mulheres você nunca ganhará, se é que já ganhou alguma vez.

Taís, nunca fiz nada de bom pra ela. Mas ela continuava me seguindo, e vai me seguir não sei até quando. Mas isso não importa. Você tem que viver, certo? Ás vezes, você usa pessoas que você não deveria. E se arrepende, mas a vida continua. Você usa muita gente se for pensar mesmo. In The Fade do Queens Of The Stone Age.

Letícia foi um arrepio no meio da noite, que continua a me perturbar durante várias noites da minha vida. Nunca a tive, e provavelmente nunca a terei, vai saber. Quando sonho com ela, percebo que é um sonho porque ela não me quer mais, porque na verdade ela nunca, de fato, quis. Valsa das Três da Manhã do Paulinho Nogueira para ela. Com todo direito.

A segunda Roberta, um erro de minha parte. Como a maioria deles. Ela também me visita em sonhos e hoje em dia, só em sonhos. Certas mulheres nunca te visitam o pensamento durante o dia, apenas a noite. Essas, eu acredito, são as que te perturbam mais. As mulheres problema são essas. Pra ela Dreamin' Of You do Bob Dylan. Nova como esse novo amor.

Por último, por enquanto, veio Paulinha. A primeira vez que pensei em casamento. Agora tudo está tão mal terminado que vai saber como irá acabar mesmo. Assim como essa vida, onde você se sente mal muito mais do que bem. Já sentiu aquele mal estar quando você acorda algumas vezes. É assim com essas mulheres. É um mal estar que te acompanha durante o dia. Um dia irá fenecer. Mas até lá, Unfinished Sympathy do Massive Attack. Uma das músicas mais lindas para uma das mulheres mais lindas, e por que não a mais linda, música ou mulher.

Se todos os casos da sua vida fossem uma música. Os casos que você lembra. Que são importantes o suficiente pra você lembrar. O repertório seria a trilha sonora da sua vida amorosa. E porque não da sua vida mesmo? Minha trilha sonora teria 21 músicas, assim como tenho 21 anos. Então, se quiser ouvir a trilha sonora da minha vida, aqui está:
http://rapidshare.de/files/46860138/Mulheres_2.rar.html A trilha sonora é muito bonita, minha vida não foi tão bonita, mas eu sinto que quando morrer, levarei essa trilha comigo, pra não sei onde. Eu provavelmente não vou para o céu. Como se pode ver nesse texto. Mas foi uma boa vida.

Foi uma boa vida. Próximo capítulo.

domingo, 5 de abril de 2009

Leite Derramado

Fui comprar o novo livro do Chico Buarque, Leite Derramado, no Del Rey na quinta-feira. Ao sair do shopping me veio um leve pensamento de suicídio, de vez em quando acontece isso com a maioria das pessoas, só que elas não falam. Pensei também que é geralmente nesses momentos que as pessoas morrem, quando elas menos esperam, quando elas têm ainda uma visão do futuro esperançosa e tudo mais. Vaso ruim não quebra fácil, Deus pensou, não é agora a sua hora, babaca. Seria mais fácil assim, pois assim ninguém teria vergonha de você, porque você foi fraco e se matou, essas coisas. Se alguém te matar é mais simples. Beleza. Atravessar aquela Carlos Luz é meio tenso, e ao meu lado tinha um cara brauzera, com uma natural blusa do Racionais MC's. Parecia gente boa, como ele ía atravessar, eu ía junto. Existe a passarela, mas quem usa aquela bosta. Então utilizei o velho "quando ele for, eu vou". Beleza. O cara atravessou, eu fui atrás. Essas avenidas largas você tem que parar no meio pra depois atravessar novamente, porque são duas vias. Paramos no meio e quando eu fui atravessar, novamente acompanhado por ele. O cara começa a dar uma crise de espirros. Isso mesmo. No meio da avenida. Resultado, passou um Fiat Uno vermelho e atropelou o cara.
O choque passou rápido, eu e uma multidão de pessoas ficamos em volta e querendo ajudar e tudo mais. No meio da porra da avenida. No braço do cara tinha uma tatuagem: Só Deus Sabe A Minha Hora. Naturalmente, pensei numa piada, só que a hora era errada. Duvido que alguém iria rir. Beleza. Chamaram a ambulância e enquanto as pessoas davam as opiniões sobre o que fazer sobre o indivíduo (apesar da ambulância já ter chegado), eu pensei: puta merda, deve ter doído bem, como é que um espirro pode te matar. Se essa era a hora dele, só Deus sabe. Pois sei que eles levaram o muleque pro hospital sei lá onde.
Como a morte pode estar do seu lado e você nem perceber. Esse cara pode ter morrido e eu nem sei. Se eu tivesse morrido aqui em BH, quem possivelmente ía saber? Porra, quem eu conheço aqui? Não tenho quase família nenhuma nessa cidade. E a família que eu tenho, eu mal vejo (apesar de grande afeto (caso algum deles leia)). Depois que as pessoas morrem, eventualmente elas são esquecidas. No começo todo mundo iria ficar meio triste, contar algumas de suas histórias e tudo mais. Mas depois, seus amigos iriam contar as suas histórias como se fossem deles, até chegar a um ponto que eles mal iriam lembrar do seu nome. Foda-se. A questão é: esse jovem que tinha uma tatuagem da Tribo da Periferia. Não é um eufemismo, é o nome da banda. Quem dá a mínima pra esse cara? Não porque ele é pior ou melhor. Mas vai saber se alguém vai lá visitá-lo, ou cuidar dele, ou sei lá o quê, pagar a cirurgia da cabeça dele. Vai saber se o cara morreu ou não. De qualquer forma, todo mundo do ponto de ônibus deve ter contado essa história pra quinhentas pessoas, mas a gente segue nossa vida normal. Eu vou ler o novo livro do Chico Buarque. Fácidéia como é. Pois eu não conhecia o rapaz. E aposto que ninguém lá perto conhecia. Mais um na lista dos falecidos do jornal. Parte essa, que ninguém lê. Governo, Classificados, Economia, Cultura, Esportes, Leite Derramado. Se eu tivesse morrido, o Obituário seria mudado de nome num trocadilho ridículo. Um rapaz morto com o livro na mão, assim como "Só Deus Sabe A Minha Hora". A gente vive pra finalmente morrer, numa piada.