
Tem certas coisas que servem mais como poesias.
Mas eu não sou poeta.
Existem momentos na vida em que as pessoas se tornam heroínas.
Mesmo que seja só para elas.
Mas são heroínas.
E quando eu viro a esquina de casa eu escuto uma música que me faz lembrar da minha primeira vez.
Primeira vez em tudo.
Momentos únicos.
Mas a primeira vez que você é um herói.
Isso que conta.
Que você aponta pro céu e se sente livre.
Eu vejo um mar de rostos.
Muitos não estão mais aqui.
Estou de volta as festas de 16, 17 anos.
Qual seu nome, qual é a sua e qual é a sua história?
O seu nome é Johnny Walker em uma versão genérica.
De qualquer forma, adeus.
Vou dar uma volta com meus amigos.
Ela diz que adeus é palavra forte demais.
Foi um prazer.
Alguém aponta pro céu, um avião.
Essa música deixa tudo em câmera lenta como em filmes clichês adolescentes.
O mundo continua no mesmo ritmo.
Mas minha mente não.
A síndrome "Garota de Ipanema" me ataca.
Aquele mesmo piano.
E a calçada fica dourada.
E naquele momento ela é a mais linda do universo.
Seu cheiro se junta ao da madrugada.
E ela não está lá.
Mas não tem problema.
A vodka barata e a cachaça.
Elas estão ao meu lado.
Isso me importa.
Olho pro céu e Deus chora.
Fecho os olhos e parece numa boate.
O pisca-pisca deixa tudo em câmera lenta.
Um mar de pessoas.
Todos sorriem facilmente.
Todos estão lá.
E principalmente.
As pessoas que me importam.
Essas pessoas são para o resto da vida.
Se pelo menos elas soubessem das escadas da vida.
A ansiedade é tanta que o momento passa mais rápido e em câmera lenta.
Feliz Ano Novo.
Dá pra ver o céu.
Não existe vento.
Estou em Valadares.
Aquele mesmo piano.
18 anos.
A cerveja de madrugada.
É natal.
Conversas e conversas sobre nada muito intelectual.
Mesmas caras para toda a vida.
E que vida boa.
Mesmos óculos, mesmos cigarros, mesmas motos, mesmos copos quebrados, mesmas músicas.
Novas namoradas.
Olhamos pro céu.
Cada estrela tem um nome de um herói.
Uma mulher bate no meu ombro.
Percebo que anos se passaram.
Estou mais velho.
Ela diz que o capitalismo vai destruir o...
Eu saio e não ouço.
Estou mais dinâmico mas não tanto.
Mais mecânico.
Sinto que ainda sou espontâneo o suficiente.
Mesmo que não tanto.
Eu viro a esquina e tudo está cinza.
Mas o mesmo piano.
De novo, de novo, de novo e de novo.
Eu olho pro céu.
Granizo em Belo Horizonte.
É a noite.
Estou em casa.
Olho pela janela.
Uma festa.
Tenha um respeito para com Joseph Villiger, Rodrigo Amarante, Chico Buarque, Marcelo Camelo, Renato Russo, Philip Morris, Johnny Walker, David Gilmour, Vinícius de Moraes, Roger Waters, Tom Jobim e John Lennon, e todos os que fizeram esses nossos momentos mais especiais.
Para todos os heróis que conheci fora dos comerciais.
Minha cabeça está em altos e baixos depois que saí daí.
Eu olho para o céu.
A cerveja me sobe os olhos.


