quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ó Dora, agora no meu pensamento te vejo requebrando.

Já li uma história do William Burroughs que ele estava com o Jack Kerouac e eles íam apostar numa corrida de cavalos. O Kerouac viu um nome de um cavalo que lembrava o avô dele, sabe-se lá porquê, eles apostaram em outro cavalo que parecia mais sadio e veloz. Eles perderam a aposta, o cavalo que lembrava o avô de Jack venceu. William Burroughs depois falou: "Nós devíamos ter apostado no cavalo que lembrava o seu avô. Sabe, o mundo dos mortos está sempre em contato com a gente, mandando pequenas mensagens. Naquela hora, o seu avô tinha falado com a gente pra apostar naquele cavalo. Nós somos burros demais pra entender isso ainda, mas quando entendermos as mensagems dos mortos, poderemos até prever o futuro". Bem, a morte tem me rodiado esses dias. Por motivos que só Deus sabe, as mortes estão relacionadas. Ontem um cara tentou se matar na Faculdade de Letras da UFMG, onde eu estudo. Foda-se, nem sei quem é o cara, onde ele mora, porque ele tentou isso. Mas essa ação dele levou a um debate aqui em casa: por qual motivo você morreria? Depois vocês se perguntem isso, sei lá. Sei que tivemos respostas bem diferentes, um de meus amigos (talvez o mais realista e menos romântico) falou que não morreria por nada ou por ninguém, depois repensou e disse que dependendo das circunstâncias poderia morrer, mas que ele dava muito valor a vida dele. Outro amigo meu falou que morreria por uma pessoa que ele prezasse muito e eu falei que morreria por muita gente. Virou uma discussão sobre honra, nobreza, valores pessoais, etc... Chegamos a conclusão que o valor da morte varia de pessoa pra pessoa, que culminou em outro debate sobre a linha de vida e o que fazer antes de morrer e tudo mais. Mas não cheguei nesse assunto por acaso, agora vem a parte mais baqueadora.
No sábado, na hora do almoço recebi uma notícia que uma tia minha havia morrido. Na hora, não pensei muito. Logo depois de uns 30 minutos que caí na real: a morte é uma desgraça. Eu era um ser mais cético e nem sabia se iria ficar triste ou chorar se alguém próximo meu tivesse morrido e tal; as coisas mudam. Assim como já ouvi as pessoas dizendo que não dão tanta valor para a família e tudo mais, eu também não dava; as coisas mudam. Fiquei calado e muito baqueado durante um tempo, pensando em como essa minha tia sempre me tratou bem, muito bem, e como eu deveria ter visto mais ela quando estava viva. Logo depois pensei no meu tio e nas filhas deles. Resultado: eu tinha que beber alguma coisa.
Enquanto bebia pensei várias coisas, sobre como eu estava pensando na minha vida e em mulheres, em banda, em amor, essas coisas. O destino chega e te dá um chute no rim, pisa na sua cabeça e coloca cigarro nos seus olhos, não é? Assim eu ía perceber. Logo após recebo a notícia que Dorival Caymmi havia morrido também. Pensei muito sobre isso, não fiquei exatamente triste pela morte dele, o cara já tinha 94 anos. Deus do céu, isso é vida longa! O que me levou a ficar mais triste foi o fato de pensar na morte em geral. Numa entrevista que vi com o Tom Jobim, ele estava triste, bebendo e falando que as pessoas vão te deixando, seus amigos vão morrendo e você fica sozinho no mundo. Se você for pensar, o Dorival Caymmi foi um dos últimos das primeiras gerações. Quem tá vivo ainda é só o João Gilberto, eu acho. Seus amigos vão morrendo, já pensou nisso? É um pensamento horripilante. Novamente aquela velha história, você não dá valor até perder.
Enchi mais um copo e coloquei pra tocar "Saudade de Bahia" do próprio Dorival. Que escolha maldita! Pra vocês terem idéia a música vai nesses versos "Ai, que saudade eu tenho da Bahia. Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia. Bem, não vai deixar a sua mãe aflita. A gente faz o que o coração dita. Mas este mundo é feito de maldade, ilusão." Um daqueles sambas antigos com um ritmo feliz e uma harmonia e letras tristíssimos. Puta que pariu. Foi só choro igual criança no parto. E a tristeza ía descendo, descendo, descendo e crescendo, crescendo, crescendo. Comecei a lembrar de família, de constituir família, de como a família é importante e como a gente perde tempo com outras coisas, coisas fugazes e efêmeras que a gente julga como importante. Foi um revoado de tristeza. Lembrei de minha tia que eu nunca mais ía ver e quanto devia ter conversado mais com ela sobre tudo. Ela é o tipo de mulher que você gosta de conversar e gosta de saber a opinião dela sobre suas coisas, as coisas que você faz da vida e coisas que pensa. Nunca mais poderei ouvir as suas opiniões. Junto com a angústia de pensar nos amigos que vão morrendo e te deixando sozinho. Mesclou-se tudo em desgraça. Morte é isso. Somente isso. No final da música "Veja que situação. E veja como sofre um pobre coração. Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz." Eu tive que pará-la. Não tinha como ouvir mais. A gente sai de casa pensando que precisa de formar, arrumar um emprego, ganhar dinheiro e sobreviver. Eu tenho um pobre coração, pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz. Para com essa música maldita! Coloquei outra música, uma música que chama "Dora". Pensei comigo mesmo, uma música mais feliz e tudo mais. Resultado: outros copos, outros soluços. Nunca "Dora" teve uma conotação tão triste.
"Dora, rainha do frevo e do maracatu Ninguém requebra, nem dança, melhor que tu"
Chorei, chorei, chorei. Imaginando o requebrado de Dora que agora adornava meu pensamento. Dorival Caymmi filho da puta!
Deu 9 horas da noite, fui para um bar beber com os amigos. Não adiantava de nada ficar em casa. Dora requebrou no meu pensamento o resto da noite com as brahmas nos bares da cidade. Então recebi uma mensagem: se existisse um paraíso, Dorival Caymmi no mesmo momento tocava "Dora" para minha tia Elaine e estávamos juntos de alguma forma...
E estávamos felizes.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Pra todos os lados que eu olho em BH, eu vejo Valadares

Sabe, talvez eu esteja ouvindo muito Libertines ultimamente, mas a saudade de Governador Valadares é maior do que eu esperava; porque foi a nossa Valadares. Não é a Valadares do GV Shopping¹, de todos os dias do Filadélfia², das mesmas pessoas no Mimi³ ou sei lá o quê. Me desculpem por todos que sempre ficaram presos a uma Valadares social, é o que mais acontece. Existem pessoas que nunca foram a um buteco, ou melhor, acham que buteco é o Guanabara, sendo que o Guanabara tem a cerveja mais cara da cidade. Claro que não perde pra suas boates, mas claro, existem pessoas que já foram ao Karambellas, existem, mas elas não conhecem a Catarina que é quase ao lado do Karambellas. Pois é, como diria um amigo meu, "Talvez eles sejam felizes assim. Só porque você acha que sua vida é mais aproveitada não quer dizer que você seja mais feliz." O que nos trás a outra discussão sobre felicidade e foda-se. Foda-se a felicidade. A felicidade é burra e isso não é grande segredo. A nossa Valadares, quando digo assim é a Valadares de meus amigos mais próximos e alguns conhecidos. A Valadares de sair pela rua CAMINHANDO (não andando de carro) bêbado e sair de uma casa pra outra sem nem saber muitas vezes quem mora lá. É a geração beat atuando. Em minha casa por exemplo, onde todos meus amigos conhecem, muitas pessoas passaram meses; sem nem pagar uma estadia ou qualquer coisa. Muita gente acha isso absurdo: "o que as pessoas fazem da vida? Nada?" Mais do que vocês, acreditem. Vocês (pelo menos os mais inteligentes e tudo mais) que gostam de Bob Dylan, The Doors, Rolling Stones, Beck, ou qualquer coisa da multi-geração beat, ouvem e acham uma coisa maluca pois acreditam que é "drogas e orgias". Mas é muito simples, por mais que seja superestimar a nossa Valadares. Não é necessário o uso de drogas e orgias, na verdade, precisa-se de pelo menos duas drogas: Álcool e cigarro. Mas nem precisa do cigarro pra falar verdade e orgias não são necessárias, mas bem que teria sido bom. Eu acho que tem que existir uma banda, isso sem sombra de dúvidas. Uma banda amada pelo menos pelos amigos. Um exemplo: nunca vi uma banda tocando tanto e recebendo menos. A Allneri foi uma coisa que mudou vidas, sendo eu da banda ou não. Os melhores shows foram em casas de amigos e não necessariamente em Festivais de bandas. É claro que existiram as fases, lembro do início mesmo, quando tocamos no Rock'n Beer e nos shows do Lugar Comum, que foram ótimos; mas acho que o espírito da banda não se encaixava muito, apesar de termos virado amigos dos organizadores. Depois existiu a fase das festas de casa e entre isso um ou outro show no Riviera's e aniversários, crédo, pensando assim, agora que vejo que foram muitos shows. Bem, o que quero dizer é: quantas vezes tocamos Can't Stand Me Now e Último Romance com Tempo Perdido, as músicas do Arctic Monkeys com "star power"(coisa que em outro momento irei explicar também) e as músicas dançantes que as meninas pediam tanto. Quantas vezes alguém da banda estava bêbado demais e caiu enquanto tocava. E as mulheres. As mulheres constituiriam um capítulo dessa história. Mas não é a hora pra isso. Em outras palavras, a nossa Valadares foi o que viveram os nova-yorkinos nos lofts e nas casas que todos moravam juntos e todo dia era uma bebedeira que só. Alguns arrumam empregos, outros não, mas quase todos continuam sinceros às amizades; e isso é o que mais conta na vida. Belo Horizonte nunca vai ser Valadares nesse sentido, para mim pelo menos. Queria que todas as melhores pessoas que conheço aqui tivessem vivido um pouco da nossa Valadares. Da Allneri tocando, enquanto isso chegava a polícia mandando baixar o volume, enquanto isso alguém ficava com alguém dentro de um quarto, enquanto isso estava sempre a roda dos bebedeiros conversando sobre a vida e coisas banais (na maioria das vezes eu era dessa roda). Rindo sempre, chorando algumas vezes (o que era ótimo também). Muita bebida, muita conversa. Os dias da chácara, que virariam outro capítulo também. A nossa Valadares foi a melhor coisa que aconteceu em muitas vidas. Muitas histórias. Mulheres que ficamos ou deixamos de ficar por motivos banais ou não. Muita gente não percebe até perder. Eu percebi um pouco antes, mas só agora que perdi que percebo mesmo. Me dá uma angústia sem fim achar que não sinto tanta saudade porque isso é um tempo que já passou, tenho os pés no chão pra saber que nunca será assim de novo e que estou melhor em Belo Horizonte. Mas queria dividir isso com todos vocês que lerem isso e não conhecerem, sei lá.

"Anoiteceu, outra vez vou sair, andar por andar, sem nada esperar, sem ter pra onde ir
Vou caminhar por aí a cantar, tentando acalmar as tristezas por onde eu passar
A minha vida boêmia de bar em bar é o meu amor sem paz por um amor vulgar
Que me abandonou chorando os meus ais e deixando também por maldade saudades demais
E eu vou levando minha alma aflita
A noite a cidade é tão bonita"
Dos violões na costela e do Daniel's Bar. Passo no Karambellas e na Catarina é que eu vou terminar

A vida que nós pedimos a Deus e passou. A nossa Valadares é minha Itabira, minha Pasárgada, minha Nova York, minha Londres, meu Oeste, meu corpo, minha alma e minha Ipanema. É tudo que sou hoje.








¹Uma galeria também conhecida como Shopping onde tudo é caro e não há nada para fazer.
²Um clube da alta sociedade mas que também recebia pessoas boas, existe a exceção, claro.
³Uma lanchonete/bar que era o ponto de encontro dos moradores dos bairros classe-alta de Valadares como Esplanada, Esplanadinha e Centro.