Já li uma história do William Burroughs que ele estava com o Jack Kerouac e eles íam apostar numa corrida de cavalos. O Kerouac viu um nome de um cavalo que lembrava o avô dele, sabe-se lá porquê, eles apostaram em outro cavalo que parecia mais sadio e veloz. Eles perderam a aposta, o cavalo que lembrava o avô de Jack venceu. William Burroughs depois falou: "Nós devíamos ter apostado no cavalo que lembrava o seu avô. Sabe, o mundo dos mortos está sempre em contato com a gente, mandando pequenas mensagens. Naquela hora, o seu avô tinha falado com a gente pra apostar naquele cavalo. Nós somos burros demais pra entender isso ainda, mas quando entendermos as mensagems dos mortos, poderemos até prever o futuro". Bem, a morte tem me rodiado esses dias. Por motivos que só Deus sabe, as mortes estão relacionadas. Ontem um cara tentou se matar na Faculdade de Letras da UFMG, onde eu estudo. Foda-se, nem sei quem é o cara, onde ele mora, porque ele tentou isso. Mas essa ação dele levou a um debate aqui em casa: por qual motivo você morreria? Depois vocês se perguntem isso, sei lá. Sei que tivemos respostas bem diferentes, um de meus amigos (talvez o mais realista e menos romântico) falou que não morreria por nada ou por ninguém, depois repensou e disse que dependendo das circunstâncias poderia morrer, mas que ele dava muito valor a vida dele. Outro amigo meu falou que morreria por uma pessoa que ele prezasse muito e eu falei que morreria por muita gente. Virou uma discussão sobre honra, nobreza, valores pessoais, etc... Chegamos a conclusão que o valor da morte varia de pessoa pra pessoa, que culminou em outro debate sobre a linha de vida e o que fazer antes de morrer e tudo mais. Mas não cheguei nesse assunto por acaso, agora vem a parte mais baqueadora.No sábado, na hora do almoço recebi uma notícia que uma tia minha havia morrido. Na hora, não pensei muito. Logo depois de uns 30 minutos que caí na real: a morte é uma desgraça. Eu era um ser mais cético e nem sabia se iria ficar triste ou chorar se alguém próximo meu tivesse morrido e tal; as coisas mudam. Assim como já ouvi as pessoas dizendo que não dão tanta valor para a família e tudo mais, eu também não dava; as coisas mudam. Fiquei calado e muito baqueado durante um tempo, pensando em como essa minha tia sempre me tratou bem, muito bem, e como eu deveria ter visto mais ela quando estava viva. Logo depois pensei no meu tio e nas filhas deles. Resultado: eu tinha que beber alguma coisa.
Enquanto bebia pensei várias coisas, sobre como eu estava pensando na minha vida e em mulheres, em banda, em amor, essas coisas. O destino chega e te dá um chute no rim, pisa na sua cabeça e coloca cigarro nos seus olhos, não é? Assim eu ía perceber. Logo após recebo a notícia que Dorival Caymmi havia morrido também. Pensei muito sobre isso, não fiquei exatamente triste pela morte dele, o cara já tinha 94 anos. Deus do céu, isso é vida longa! O que me levou a ficar mais triste foi o fato de pensar na morte em geral. Numa entrevista que vi com o Tom Jobim, ele estava triste, bebendo e falando que as pessoas vão te deixando, seus amigos vão morrendo e você fica sozinho no mundo. Se você for pensar, o Dorival Caymmi foi um dos últimos das primeiras gerações. Quem tá vivo ainda é só o João Gilberto, eu acho. Seus amigos vão morrendo, já pensou nisso? É um pensamento horripilante. Novamente aquela velha história, você não dá valor até perder.
Enchi mais um copo e coloquei pra tocar "Saudade de Bahia" do próprio Dorival. Que escolha maldita! Pra vocês terem idéia a música vai nesses versos "Ai, que saudade eu tenho da Bahia. Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia. Bem, não vai deixar a sua mãe aflita. A gente faz o que o coração dita. Mas este mundo é feito de maldade, ilusão." Um daqueles sambas antigos com um ritmo feliz e uma harmonia e letras tristíssimos. Puta que pariu. Foi só choro igual criança no parto. E a tristeza ía descendo, descendo, descendo e crescendo, crescendo, crescendo. Comecei a lembrar de família, de constituir família, de como a família é importante e como a gente perde tempo com outras coisas, coisas fugazes e efêmeras que a gente julga como importante. Foi um revoado de tristeza. Lembrei de minha tia que eu nunca mais ía ver e quanto devia ter conversado mais com ela sobre tudo. Ela é o tipo de mulher que você gosta de conversar e gosta de saber a opinião dela sobre suas coisas, as coisas que você faz da vida e coisas que pensa. Nunca mais poderei ouvir as suas opiniões. Junto com a angústia de pensar nos amigos que vão morrendo e te deixando sozinho. Mesclou-se tudo em desgraça. Morte é isso. Somente isso. No final da música "Veja que situação. E veja como sofre um pobre coração. Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz." Eu tive que pará-la. Não tinha como ouvir mais. A gente sai de casa pensando que precisa de formar, arrumar um emprego, ganhar dinheiro e sobreviver. Eu tenho um pobre coração, pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz. Para com essa música maldita! Coloquei outra música, uma música que chama "Dora". Pensei comigo mesmo, uma música mais feliz e tudo mais. Resultado: outros copos, outros soluços. Nunca "Dora" teve uma conotação tão triste.
"Dora, rainha do frevo e do maracatu Ninguém requebra, nem dança, melhor que tu"
Chorei, chorei, chorei. Imaginando o requebrado de Dora que agora adornava meu pensamento. Dorival Caymmi filho da puta!
Deu 9 horas da noite, fui para um bar beber com os amigos. Não adiantava de nada ficar em casa. Dora requebrou no meu pensamento o resto da noite com as brahmas nos bares da cidade. Então recebi uma mensagem: se existisse um paraíso, Dorival Caymmi no mesmo momento tocava "Dora" para minha tia Elaine e estávamos juntos de alguma forma...
E estávamos felizes.

