Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Amizade


Augusto e Arnaldo estavam em casa conversando:
__E aí véi, porque você não foi na festa sábado? Foi muito boa!

__A gente teve show, não deu pra ir.

__E como foi?

__O show foi destruidor, fiquei sabendo.

__E a votação?

__Perdemos.

__Foda.

__É foda.

__De qualquer forma, você acredita que a Fabiana e a Luciana entraram num quarto com um menino de 17 anos na festa?

__Nossa.

__Você pode imaginar, né?

__Foda.

__Mas não ía fazer diferença você tá lá, você tá namorando.

__Tava.

__Terminaram?

__Aham.

__Nó, e como foi?

__Ah, eu não gosto de namorar, né... Sempre foi assim.

__E ela?

__Ela falou que eu poderia escrever algo no blog, algo sobre o sangue do meu pai, essas porcarias que eu falo sempre.

__Nossa.

__É, ela foi baixa. Aí eu falei que então ela lia.
__Hahahahaha.
__Aí ela disse que todo mundo lê, mas ninguém comenta
__É verdade
__Que merda essa desgraça. Mas eu nunca escreveria sobre uma coisa dessas no blog. É ridículo esse povo que coloca a vida privada a mostra assim.

__É foda.

__Ah, é. Hahaha. Depois eu disse que ela tem sorte de aparecer no blog, porque muita menina queria.

__Hahahaha. Que bosta. E ela?
__Ela perguntou quem.

__Hahahaha.
__Eu só consegui pensar nuns quatro nomes. Achei que era pouco. Aí falei que seria melhor eu não falar.
__Hahahahahaha. Que ridículo. Você poderia ter inventado.

__É... Acho que você tá certo.

__E você arrependeu?
__De quê?
__De ter terminado.
__Ah, não sei. Isso eu só vou saber amanhã ou depois.
__É foda.
__Vamo assistir um filme aqui.

__Qual?

__Tem "A Viagem de Chihiro", "Nascido Para Matar", "Born like this" do Bukowski, "The Year Punk Broke" do Sonic Youth do Nirvana do Dinosaur Jr, "Hotel Rwanda" e "M".

__Tanto faz.

__Então vamo assistir "A Viagem de Chihiro".


Depois de assistirem o filme, Arnaldo gostou muito de um personagem que se chamava "No Face". Pesquisando, descobriu que o personagem é uma espécie de sanguessuga. Sentiu uma certa tristeza, mas não falou nada com o amigo.

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Braid

Tudo começa como um erro.
Minha mãe é enfermeira. Os médicos que cuidaram do parto eram todos seus amigos de trabalho. Esqueceram de olhar a hora em que nasci. Minha mãe perguntou: -Que horas que foi?- Os médicos: -Foi o quê?- Minha mãe: -Que o menino nasceu, gente.- Os médicos olharam para o relógio e calcularam de cabeça que deveria ter sido por volta das 11 e 40 da manhã. Era 1 da tarde. Até hoje não sei a hora que nasci. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
A primeira vez que fiquei com uma menina, de ficar ficar mesmo. Eu tinha uns 9, 10 anos. Não lembro. Uma menina mais velha estava afim de mim. Meus amigos me falaram que eu ía ficar com ela senão ela ía espalhar por todo o bairro que eu era gay e tudo mais. Coisa que provavelmente ela faria. Fiquei com ela. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
Eu perdi minha virgindade com também uma menina mais velha. Eu tinha 13, 14 anos. Não lembro. Ela praticamente me atacou. Ela era um monstro. Hoje até é bonita, vi em algumas fotos. Mas na época ela me atacou, assim como o seu cabelo atacava a beleza do mundo. Pensei: -isso é sexo? É sobre isso que os caras ficam falando no recreio do colégio? Nossa, se sexo é isso, então é uma bosta. Que merda- Mas eu queria provar que eu era um homem. Então fiz até ela gozar. Eu não gozei. Mas nós quebramos duas pernas da minha cama. Eu e a besta. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
Minha primeira briga foi quando eu tinha uns 15 anos. Eu era meio doido na época. Andava pelos debuts me achando melhor do que todos que estavam lá dançando e tudo mais. Chamava todo mundo de playboy na cara. Enquanto eu bebia mais e mais. Um dia, saí com dois primos de Belo Horizonte e eles se encontraram com um grupo de pessoas que os odiavam e tudo mais. Eram 9 pessoas. Eles foram pra cima da gente. Dei um soco. Levei uma correntada na cara. A briga acabou por aí. Foi o começo do fim.

Tudo começa como um erro.
Meu primeiro porre brutal foi quando eu tinha 16 anos. No aniversário da irmã de um grande amigo. Bebi, briguei, chorei, gritei, dei cabeçada, vomitei e caguei. Quase quebrei meu violão. Perdi minha ex-namorada da época nesse dia. Foi o começo do fim.

Pra falar a verdade, a gente só faz merda a vida inteira. Eu não fiz nada certo até hoje. Já fiquei com não sei quantas meninas, já transei com não sei quantas meninas. Todos os casos que poderiam dar certo, eu fiz questão de cagar em cima deles. Poderia me casar com várias das meninas que já fiquei. Mas tem algo aqui dentro, que não deixa nada dar certo. Um sentimento de querer ir e ficar. Mas a gente sempre prefere ir. É mais covarde e seguro do que arriscar ir contra os seus princípios e a sua suposta masculinidade/liberdade. Ao mesmo tempo, temos esse egoísmo. Não queremos que nos esqueçam também. Então somos sujos e procuramos até pegar de novo o coração de cada uma. Isso tudo é errado. Eu me sinto como se já estivesse na hora de virar homem. De fazer alguma coisa certa, mas nada certo acontece. Melhor é não fazer nada, talvez. Esperar que caia do céu a mulher amada que me dará de beber a água com que havia lavado sua blusa.

Antes fosse só sobre mulheres. Você também enfia o pé na cara de seus amigos e familiares. Você querendo ser bom para todos. Acaba dando uma voadora na cara de vários e às vezes até na sua própria cara. Tudo errado. Tudo errado o tempo inteiro. Tudo errado a porra do tempo inteiro. Isso é impressionante. É uma putaria. Já vivi mais do que muita gente mas sinto mais vontade de morrer do que muita gente também. Então cadê a porra do sentido de mais e menos? O que vale mais?

Pensar nessas coisas só piora tudo. Quem sou eu pra ficar jogando e brincando com a vida dos outros? Dos meus amigos e dessas mulheres? Quem sou eu pra deixar esse rastro pela vida de cada um que me conhece? Tantas pessoas que já foram pelo caminho. Já deixei tantas pessoas pra trás. A gente perde tudo nessa vida. Tudo. Já deixei tanta gente pra trás que é inacreditável. Nunca vou conversar de novo com aquele casal amigo da minha ex-namorada da cidade dela. Nunca mais vou conversar com seus pais ou com sua irmã. Nunca mais vou poder ser amigo daquele cara com quem eu discuti um dia sobre eu amar a mulher que ele amava. Ele era meu amigo. Com que direito que eu entro e saio da vida das pessoas? Eu não sou Deus nem nada. Tá na hora de virar homem, tá na hora de virar gente, certo?

A gente vive a vida toda nesses erros. Não podemos voltar no tempo nem nada. Somos criados para ser heróis. Somos criados na ilusão de que um dia seremos heróis. A cada dia. Percemos que seremos o monstro e não o herói. Aí percebemos: Nascemos para trair nossos irmãos. Trair nossas namoradas. Trair nós mesmos. E quando você percebe que você não é o herói que salva a princesa, e sim o monstro que quer aprisioná-la. Isso dói. Dói pra caralho. Dói até na sua alma.











DÓI










MAS VOCÊ NÃO CHORA


















Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Com uma modéstia a parte, sou eu e Napoleão Bonaparte

A primeira vez que tentei me matar foi quando tinha 14 anos.
Eu estava na praia, e fui o mais longe que pude, nadando.
Fiquei algumas horas olhando o céu.
Finalmente comecei a nadar para baixo.
Trinta segundos depois tentei voltar a superfície.
Apaguei.
Acordei uma hora depois na praia.
Com uma mulher me beijando.

A segunda vez que tentei me matar foi quando tinha 15 anos.
Me joguei do quinto andar de um prédio.
Quebrei as duas pernas.
Apaguei.
Acordei algumas horas depois num hospital.
Com uma enfermeira me furando.

A terceira vez que tentei me matar foi quando tinha 16 anos.
Comecei a beber sozinho às seis horas da tarde.
Uísque, Vodka, Cerveja, Conhaque, Cachaça, Vinho, Curaçau, Rum, Cauim.
Não lembro que horas.
Apaguei.
Acordei um dia depois num hospital.
Minha vó chorando ao meu lado me contando a história de como fui encontrado.

A quarta vez que tentei me matar foi quanto tinha 17 anos.
Tomei pílulas anti-depressivas, estimulantes e tranquilizantes misturadas com Rum e Coca-Cola.
Qualquer fenobarbital, benzodiazepina, lexotan, rivotril, dormonid, trizolam, flunitrazepam, valium, rohypnol, oxazepam, até viagra.
Uma de cada vez, o gosto estava ótimo.
Apaguei.
Acordei 1 mês depois com um gosto horrível na minha boca.
Era um tubo de alguns metros que me fez vomitar várias e várias vezes.
Consciente ou Inconsciente.

Aos 18 anos não tentei me matar.
A vida era boa.

A quinta vez que tentei me matar foi quando tinha 19 anos.
Amarrei um saco plástico na minha cabeça.
Só lembro de ter ouvido o som do mar.
Muito ao longe.
Deve ser que foi uma memória da minha primeira vez.
Apaguei.
Acordei alguns minutos depois com uma amiga com uma faca cortando o saco.
Na hora pensei que ía morrer.

A sexta vez que tentei me matar foi na semana passada.
Fui assaltado na Antônio Carlos.
Vindo pra casa.
Dois caras me abordaram e pediram pra eu passar tudo.
Eu falei não.
Eles apontaram a arma para minha cara.
E eu disse que eu era meio suicida.
E que eles eram a solução pra esse meu desejo.
Eles me espancaram e roubaram minha carteira.
Apaguei.
Acordei algumas horas depois no mesmo lugar.
Deixaram meu sapato pelo menos.

Até hoje coleciono suicide notes.
Outro dia li um e era mais ou menos isso:

Eu quero que minha vida termine. Eu estou cansado de estragar tudo em que encosto. Eu estou cansado de saber que não serei ninguém. Eu estou cansado de tentar ser decente. Eu espero que alguém encontre isso e minha mãe saiba que ela não tem culpa de nada. Eu fudi a minha própria vida. O ódio que cresce dentro de mim não é pelas pessoas que amo ou pelas pessoas que odeio, que me encontraram pela vida. Esse ódio é por mim e só por mim.

A muito tempo eu esqueci das pessoas que me machucaram ou me traíram, mas eu não me esqueci das coisas que eu fiz para outras pessoas e para mim mesmo.

Acabei rindo muito disso.
Nem saber escrever direito eu sei.
Não tem nem linha de raciocínio.
Mas é tudo verdade.
Se você pensar, a maioria das pessoas tem um motivo pra viver mais um dia.
Você tem um?
Eu sei que eu tenho.

Com uma modéstia a parte.
Das contas no final.
Sou mesmo eu quem mereço pena.
Napoleão pelo menos teve Santa Helena.
Tudo que eu tenho é um doce nada.
Nada a perder.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Mulheres 2


Sara foi o começo de tudo, Sara seria The Heart Asks Pleasure First do Michael Nyman, a música mais linda que eu já ouvi. Assim como o primeiro amor é o mais lindo e utópico, não é? Que ironia, nunca nem beijei a Sara. Mas ela foi o início dessa dor de cabeça de alegrias e tristezas. Poucas pessoas reconhecem a beleza dessa mulher como eu reconheço. E isso me deixa feliz e triste ao mesmo tempo.

Mas Eliane foi minha primeira mulher mesmo. Ela seria Menina Mulher da Pele Preta do Jorge Ben. De um cd que aniquilou a minha vida, A Tábua de Esmeralda. A alquimia estava ali comigo e com ela.

Bruna foi o meu primeiro caso vultuoso. Eu só tinha 15 anos. Ela seria Pink Maggit, a última música do White Pony, o cd do Deftones que endireitou essa incerteza de tudo, assim como ela tirou essa incerteza. Porque no cd da minha vida (pelo menos amorosa) essa faria parte de um trio de músicas, assim como um trio de mulheres. Minha incerteza me fez perder as três. Bruna foi importantíssima.

Cláudia foi a segunda do trio e a mais divertida. Mas a Cláudia era perigosa. Ela era uma mulher problema em potencial. Você não podia se encantar pela Cláudia, porque ela corria. Assim como a maioria das mulheres. Ela seria Handsome Devil, do cd Hatful Of Hollow, da banda The Smiths. Nem preciso de comentar sobre a banda e a banda seria uma comparação exata com a Cláudia, principalmente nessa música. O refrão faz uma referência que a maioria vai entender se ouvir.

Gabriela foi a terceira do trio, a menos divertida. E foi o ápice do trio, porque foi com ela que eu perdi as três. Fiquei com ela pensando na Bruna e na Cláudia. Ela seria Visions of Johanna do Bob Dylan. A música é perfeita pra toda essa situação. As três eram amigas até então.

Depois veio a primeira Roberta, muito nova, apaixonante, mas nova demais e muito diferente de mim. Mas existia a atração, e isso é o princípio do fim. Ela seria Leve do Chico Buarque de Hollanda.

Marcella é Deixa Estar do Los Hermanos. Na época eu havia descoberto o Bloco do Eu Sozinho. Existem alguns casos que você confunde com amor, ou talvez foi amor, você não sabe. Marcella foi uma dessas primeiras, meu amor foi tão sincero quanto esta música do Los Hermanos e tão inconstante quanto.

Jane veio logo em seguida, é impressionante o quanto uma mulher pode te levar a loucura quando ela realmente te quer. Foi o rápido que mais demorou. Pois fica na sua cabeça. Eu gostaria de encontrar Jane de novo, mas nunca mais a encontrei. Foi simplesmente sexual, mas nem por causa disso foi ruim, pelas algumas noites de sexo com ela, Windowlicker do Aphex Twin.

Anna Maria. Não sei porque diabos essa mulher se interessou. Essa foi uma das melhores épocas da minha vida. Era uma mulher atrás da outra. Era só ligar. Ou talvez nem precisasse. Nas festas você se encontrava alguém. Existem muitas formas bizarras nessa vida de ganhar uma menina. Mas a menos usada é conversar. A maioria dos homens não são sinceros ou acham que o gosto das mulheres é outro senão um bom humor, bom gosto, auto-confiança. E geralmente você não precisa de ser bonito pra ter auto-confiança. O que algumas pessoas confundem com charme. Os processos de atração ultrapassam o processo da visão. Para Anna, Ms. Fat Booty do Mos Def. Na época eu ouvia muito rap.

Suellen veio depois, deixou muitas marcas. Pois foi a primeira mulher que eu realmente fui eu mesmo para ganhar. Ou seja, eu maltratei ela. Ela merecia tudo.
Ela seria Bukowski do Modest Mouse. Foi o começo de Bukowski e de Vitor também.

Rafaela tinha três anos a menos que eu. Tem alguma coisa com essas meninas. Sempre elas tão ali pra te instigar, e você, a sua vida toda, tem que se controlar. Uma hora ou outra você acaba se entregando. Eu tinha 17 anos, ela tinha 14. 3 anos bem distantes um do outro. Hoje eu tenho 20 e ela tem 17. Daqui a um tempo a distância não será tão grande. Ela foi meu Playground Love do Air. Porque eu era um Highschool Lover. E foi quando eu descobri essa música. A música que me dá mais tesão assim como a mulher que me dá mais tesão. Ela é mais uma que eu perdi, por eu ser eu mesmo ou por falta de sorte mesmo, até hoje ouço Playground Love, mas nunca mais ouvi o suspiro de Rafaela, e provavelmente nunca mais vou ouvir.

Então veio Camila, meu primeiro namoro. Até então eu não tinha namorado. Eu nunca fui de namorar. Algumas pessoas carregam algo dentro delas, que não deixa elas namorarem durante tanto tempo, você se sente inquieto, com vontade de explodir. Não sei explicar direito, mas você se torna inconstante e infeliz. É isso que acontece comigo. Sempre achei que isso era o sangue do meu pai. Que sempre foi inconstante em relacionamentos também e sempre tratou muito mal as mulheres. Você não pode mudar o seu sangue. Mas você pode tentar controlá-lo, porque minha mãe sempre foi uma mulher muito boa. Édipos a parte. Camila seria Amor de Trapo e Farrapo do Paulo Vanzolini, o primeiro amor que quase deu certo, só poderia ser um amor assim.

Stella foi uma das melhores. Puro tesão. Até hoje, puro tesão. Ela seria Methamphetamine Blues do Mark Lanegan.

Maria Clara foi inesquecível. Inesquecível pelo menos por enquanto. Nessas horas você vê que você é uma pessoa horrível. Queria morar com ela e viver com ela, mesmo que por um tempo. Mas os dias passam e mais distante você está da pessoa e da possibilidade. A vida te leva. Uma das músicas mais lindas que já ouvi pra ela. Live With Me do Massive Attack.

Depois veio o começo de uma indignação. Larice, outra mulher que eu maltratei, que foi para uma pessoa que ofereceu algo pra ela logo após. Isso é uma das teorias mais provadas da vida. O que ganha uma mulher, na maioria das vezes, é a ocasião. Você não é nada. Ela que faz tudo. Para Larice, Carinha dos Trovadores Urbanos. Para ela e para todos os carinhas que chegaram depois para essas mulheres.

Você já sentiu uma enorme atração por uma pessoa, pelo intelecto dela e pelo corpo dela? Mas depois esse sentimento fenece. Assim como a flor que é mudada de vaso. Ela simplesmente fenece. Mas o sentimento importa do mesmo jeito. Para Teresa, Break You Off do The Roots. Você ganha uma pessoa pela ocasião.

Um dos maiores e mais sofridos. Que eu sofri mesmo. Para nossa amiga Marina, Take You On A Cruise do Interpol. Eu sofri demais, como todos nós sofremos em alguma etapa da vida. Sonhos destruídos. É assim. Todo o desejo sexual e amoroso está aqui, mas ela não está e nunca estará. Certas mulheres você nunca ganhará, se é que já ganhou alguma vez.

Taís, nunca fiz nada de bom pra ela. Mas ela continuava me seguindo, e vai me seguir não sei até quando. Mas isso não importa. Você tem que viver, certo? Ás vezes, você usa pessoas que você não deveria. E se arrepende, mas a vida continua. Você usa muita gente se for pensar mesmo. In The Fade do Queens Of The Stone Age.

Letícia foi um arrepio no meio da noite, que continua a me perturbar durante várias noites da minha vida. Nunca a tive, e provavelmente nunca a terei, vai saber. Quando sonho com ela, percebo que é um sonho porque ela não me quer mais, porque na verdade ela nunca, de fato, quis. Valsa das Três da Manhã do Paulinho Nogueira para ela. Com todo direito.

A segunda Roberta, um erro de minha parte. Como a maioria deles. Ela também me visita em sonhos e hoje em dia, só em sonhos. Certas mulheres nunca te visitam o pensamento durante o dia, apenas a noite. Essas, eu acredito, são as que te perturbam mais. As mulheres problema são essas. Pra ela Dreamin' Of You do Bob Dylan. Nova como esse novo amor.

Por último, por enquanto, veio Paulinha. A primeira vez que pensei em casamento. Agora tudo está tão mal terminado que vai saber como irá acabar mesmo. Assim como essa vida, onde você se sente mal muito mais do que bem. Já sentiu aquele mal estar quando você acorda algumas vezes. É assim com essas mulheres. É um mal estar que te acompanha durante o dia. Um dia irá fenecer. Mas até lá, Unfinished Sympathy do Massive Attack. Uma das músicas mais lindas para uma das mulheres mais lindas, e por que não a mais linda, música ou mulher.

Se todos os casos da sua vida fossem uma música. Os casos que você lembra. Que são importantes o suficiente pra você lembrar. O repertório seria a trilha sonora da sua vida amorosa. E porque não da sua vida mesmo? Minha trilha sonora teria 21 músicas, assim como tenho 21 anos. Então, se quiser ouvir a trilha sonora da minha vida, aqui está:
http://rapidshare.de/files/46860138/Mulheres_2.rar.html A trilha sonora é muito bonita, minha vida não foi tão bonita, mas eu sinto que quando morrer, levarei essa trilha comigo, pra não sei onde. Eu provavelmente não vou para o céu. Como se pode ver nesse texto. Mas foi uma boa vida.

Foi uma boa vida. Próximo capítulo.

Domingo, 5 de Abril de 2009

Leite Derramado

Fui comprar o novo livro do Chico Buarque, Leite Derramado, no Del Rey na quinta-feira. Ao sair do shopping me veio um leve pensamento de suicídio, de vez em quando acontece isso com a maioria das pessoas, só que elas não falam. Pensei também que é geralmente nesses momentos que as pessoas morrem, quando elas menos esperam, quando elas têm ainda uma visão do futuro esperançosa e tudo mais. Vaso ruim não quebra fácil, Deus pensou, não é agora a sua hora, babaca. Seria mais fácil assim, pois assim ninguém teria vergonha de você, porque você foi fraco e se matou, essas coisas. Se alguém te matar é mais simples. Beleza. Atravessar aquela Carlos Luz é meio tenso, e ao meu lado tinha um cara brauzera, com uma natural blusa do Racionais MC's. Parecia gente boa, como ele ía atravessar, eu ía junto. Existe a passarela, mas quem usa aquela bosta. Então utilizei o velho "quando ele for, eu vou". Beleza. O cara atravessou, eu fui atrás. Essas avenidas largas você tem que parar no meio pra depois atravessar novamente, porque são duas vias. Paramos no meio e quando eu fui atravessar, novamente acompanhado por ele. O cara começa a dar uma crise de espirros. Isso mesmo. No meio da avenida. Resultado, passou um Fiat Uno vermelho e atropelou o cara.
O choque passou rápido, eu e uma multidão de pessoas ficamos em volta e querendo ajudar e tudo mais. No meio da porra da avenida. No braço do cara tinha uma tatuagem: Só Deus Sabe A Minha Hora. Naturalmente, pensei numa piada, só que a hora era errada. Duvido que alguém iria rir. Beleza. Chamaram a ambulância e enquanto as pessoas davam as opiniões sobre o que fazer sobre o indivíduo (apesar da ambulância já ter chegado), eu pensei: puta merda, deve ter doído bem, como é que um espirro pode te matar. Se essa era a hora dele, só Deus sabe. Pois sei que eles levaram o muleque pro hospital sei lá onde.
Como a morte pode estar do seu lado e você nem perceber. Esse cara pode ter morrido e eu nem sei. Se eu tivesse morrido aqui em BH, quem possivelmente ía saber? Porra, quem eu conheço aqui? Não tenho quase família nenhuma nessa cidade. E a família que eu tenho, eu mal vejo (apesar de grande afeto (caso algum deles leia)). Depois que as pessoas morrem, eventualmente elas são esquecidas. No começo todo mundo iria ficar meio triste, contar algumas de suas histórias e tudo mais. Mas depois, seus amigos iriam contar as suas histórias como se fossem deles, até chegar a um ponto que eles mal iriam lembrar do seu nome. Foda-se. A questão é: esse jovem que tinha uma tatuagem da Tribo da Periferia. Não é um eufemismo, é o nome da banda. Quem dá a mínima pra esse cara? Não porque ele é pior ou melhor. Mas vai saber se alguém vai lá visitá-lo, ou cuidar dele, ou sei lá o quê, pagar a cirurgia da cabeça dele. Vai saber se o cara morreu ou não. De qualquer forma, todo mundo do ponto de ônibus deve ter contado essa história pra quinhentas pessoas, mas a gente segue nossa vida normal. Eu vou ler o novo livro do Chico Buarque. Fácidéia como é. Pois eu não conhecia o rapaz. E aposto que ninguém lá perto conhecia. Mais um na lista dos falecidos do jornal. Parte essa, que ninguém lê. Governo, Classificados, Economia, Cultura, Esportes, Leite Derramado. Se eu tivesse morrido, o Obituário seria mudado de nome num trocadilho ridículo. Um rapaz morto com o livro na mão, assim como "Só Deus Sabe A Minha Hora". A gente vive pra finalmente morrer, numa piada.